A poluição por fibras têxteis nos oceanos: uma nova ameaça ao meio ambiente
A poluição marinha causada por plásticos e detritos provenientes de atividades industriais é um problema amplamente documentado, mas um estudo recente realizado por instituições de ensino, como o Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (IMar/Unifesp) do Campus Baixada Santista, a Universidade Santa Cecília (Unisanta) e a Universidade Estadual Paulista (Unesp) – Unidade São Vicente, revelou uma nova preocupação silenciosa: as fibras têxteis que se desprendem de nossas roupas. A pesquisa, divulgada na revista científica Toxics, indica que esses pequenos fragmentos podem impactar negativamente o desenvolvimento de organismos marinhos e perturbar a saúde dos ecossistemas oceânicos.
Os cientistas investigaram as consequências de três tipos de fibras – sintéticas, como o poliéster; naturais, como o algodão; e misturadas, compostas por 50% de algodão e 50% de poliéster – sobre a saúde embrionária de ouriços-do-mar, que são considerados bioindicadores do meio ambiente. Os dados coletados foram alarmantes: a exposição a essas microfibras resultou em atrasos no desenvolvimento embrionário e críticas anomalias morfológicas nos organismos analisados.
Essas microfibras finais alcançam o ambiente marinho por diversas vias, sendo a principal a lavagem de roupas. Durante essa prática, muitas partículas microscópicas se soltam das fibras e são despejadas em sistemas de esgoto, muitos dos quais carecem da tecnologia necessária para filtrar esses resíduos antes que cheguem a rios e oceanos. Além disso, o desgaste natural das vestimentas durante o uso diário libera fibras no solo e no ar, que podem ser transportadas até os oceanos pelo vento e pela chuva.

Uma das constatações mais alarmantes deste estudo é que as microfibras se tornam ainda mais tóxicas quando permanecem por períodos prolongados em água salgada. Esse fenômeno pode ser atribuído à interação dessas fibras com outros materiais presentes no ambiente marinho, resultando na liberação de substâncias químicas nocivas aos organismos aquáticos.
Consequências para a biodiversidade marinha
Os impactos negativos das fibras têxteis nos embriões de ouriços-do-mar ressaltam a importância de uma atenção redobrada para essa forma de poluição. De acordo com os pesquisadores, a saúde embrionária desses organismos é crucial para avaliar a qualidade dos ecossistemas marinhos. Alterações nesse desenvolvimento podem provocar efeitos adversos na cadeia alimentar, causando desequilíbrios ecológicos e comprometendo a reprodução de diversas espécies.

“Caso os organismos marinhos não se desenvolvam adequadamente em razão da contaminação por microfibras, estamos diante de um problema ambiental de magnitude preocupante”, afirma um dos autores do estudo, o professor Rodrigo Brasil Choueri, da Unifesp. “Essas partículas são invisíveis ao olho nu, mas seus impactos podem ser devastadores para os oceanos”.

Diante dos riscos representados pelas microfibras têxteis, os pesquisadores defendem a implementação de estratégias que visem diminuir a presença desses contaminantes no meio ambiente. Algumas das propostas incluem:
- O desenvolvimento de filtros para máquinas de lavar que consigam capturar microfibras antes de serem lançadas nos sistemas de esgoto;
- A utilização de materiais menos poluentes na confecção de roupas, priorizando tecidos que liberem uma quantidade reduzida de partículas durante o uso e a lavagem;
- O estabelecimento de políticas públicas e programas de monitoramento que ajudem a mapear e mitigar a contaminação por microfibras;
- A promoção da educação ambiental e da conscientização da população quanto ao impacto das vestimentas nos oceanos e às práticas de consumo sustentável.
“A resolução desse problema exige tanto inovações tecnológicas quanto mudanças nos hábitos de comportamento”, salienta o professor Rodrigo. “Optar por vestimentas feitas a partir de materiais sustentáveis, reduzir a frequência das lavagens e empregar dispositivos que filtrem microfibras são pequenas ações que podem resultar em um alto impacto na preservação dos oceanos”.
A responsabilidade da indústria da moda
O estudo conduzido por pesquisadores da Unifesp enfatiza a urgência de revisar os modelos de produção da indústria têxtil, um dos setores que mais contribuem para a geração de resíduos em escala global. As evidências apontam para uma necessidade premente de desenvolver tecidos e processos de produção que minimizem a liberação de microfibras, além de incentivar pesquisas que busquem soluções eficazes para combater esse tipo de poluição.
Enquanto os cientistas avançam em suas investigações, há uma esperança de que mais nações adotem regulamentações efetivas para acompanhar e reduzir o impacto das microfibras têxteis no meio ambiente. Até que isso ocorra, cabe aos consumidores escolherem opções mais sustentáveis e pressiona as empresas a assumirem uma responsabilidade ambiental maior.
O artigo completo está disponível na revista Toxics.
Fonte: Guia Região dos Lagos